
Mas, afinal, para uma Associação que nasceu há 30 anos com o desejo de oferecer aos mais vulneráveis uma rampa de regresso à vida ativa, será a sua longevidade uma incómoda e derradeira prova de inutilidade? Erradicar a pobreza parece ser tão difícil quanto devolver ao mar a água de um barco a afundar. E, ainda assim, aqui estamos, procurando contribuir e fazer a diferença.
Vamos contar-vos uma pequena história.
Há uns bons anos, a Associação CAIS e a empresa Farmacêutica MSD, tiveram uma ideia e colocaram-na em marcha, aspirando que pudesse ser o princípio de um grande projeto. Passava por estabelecer um modelo de empreendedorismo social, prestado por utentes da CAIS aos colaboradores da empresa. Assente num engenhoso sistema de rendimento, assemelhava-se, em parte, aos serviços de entregas que hoje circulam por todo o lado.
Ao longo de vários anos a CAIS promoveu ativamente o micro negócio e foi procurando formas de o expandir a muitos outros beneficiários da CAIS, como mais um meio de capacitação e empregabilidade (o mesmo objetivo da Revista CAIS). Na realidade, este serviço começou por ser um sucesso em crescendo, ainda que exigisse muito empenho da associação, seja em atividades de marketing ou de gestão.
Com a chegada da pandemia o negócio colapsou. O território do negócio esvaziou-se com os clientes a ficarem em casa. Felizmente, o modelo firmado, dotado de “inteligência social”, assegurou a sustentabilidade do seu único colaborador em funções. Coincidência ou não, este mesmo atingiu por essa altura a idade da reforma e acabou por gozar dela, pouco depois.
Sem margem para evolução, o negócio foi encerrado. Chamava-se “CAISbuy@work”.
Estamos a contar esta história porque ela é, acima de tudo, uma história feliz. Ofereceu um espaço, um propósito e um sustento a um cidadão condenado à mais ingrata infelicidade que a solidão, a pobreza e a mediana longevidade podem trazer.
E é isso que fazemos na CAIS. Trabalhamos para que outros possam voltar a trabalhar e a sentirem-se, de novo, a fazer parte. O esforço é, por vezes, enorme, quase heróico, mas todos os sucessos têm um impacto incalculável, seja para os beneficiários visados, como para toda a rede social conexa que se consolida e se humaniza. Hoje, confirmamos, a missão da CAIS faz todo o sentido e haverá sempre espaço para tentarmos novas abordagens.
Este mês a Associação CAIS faz 30 anos. Não é obra de uma única pessoa, nem de apenas uma Associação. Resultou, até hoje, da confluência de pequenos e grandes gestos amigos, de muita resiliência e do reconhecimento de tão singular função que a Associação presta. Aqui e ali, a solidariedade surge, esporádica ou consistente, e dela fazemos a nossa obra, os nossos sucessos e insucessos.
Celebramos uma história de luta e persistência e sobretudo as muitas vidas que afetámos, mas continuamos a perguntar: como poderemos ir mais além, pelo próximo?
Num mundo em que o futuro não parece abrandar e dar tréguas aos desastres, são momentos destes que podem fazer toda a diferença. Quando paramos de pensar em nós e damos lugar aos problemas dos outros.



